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Começo, Meio e Fim 

Por: Anísio Baldessin  

Nas atividades de líder e gestor, uma das minhas responsabilidades é conduzir o encerramento de contratos com fornecedores e sobretudo, com colaboradores. Afinal, contratos terminam, ciclos fecham, empresas mudam de rumo e pessoas seguem outros caminhos. Tanto é verdade que frequentemente, ouvimos e até mesmo repetimos a velha frase: “Na vida, nada é eterno”. Prova disso é a semente. Enquanto ela permanece inteira, protegida, guardada, ela é apenas um grão, bonita, mas estéril. Para que se torne fruto, ela precisa (morrer) aceitar o escuro da terra, perder a própria forma, deixar de ser o que era. E isso não é uma falha.  

Assim, são os contratos de trabalho, os relacionamentos e até mesmo os de convivência. Eu acredito que eles não “morrem” necessariamente porque falharam, mas porque cumpriram um ciclo. Por isso, na minha opinião, insistir em permanecer onde já não há mais crescimento, seria como manter os grãos guardados no celeiro, seguros, protegidos, mas sozinhos. Portanto, o fim de um relacionamento, contrato, (demissão) por mais doloroso que seja, muitas vezes funciona como essa terra escura onde somos lançados contra a nossa vontade. No primeiro momento, tudo parece perda da identidade, segurança, rotina, reconhecimento. Porém, com o tempo, pode-se revelar como espaço de reconfiguração, de descoberta de capacidades adormecidas, de novos sentidos para a vida. 

Essas verdades, na teoria, soam muito bem. Mas na prática não é bem assim. Basta ver o que acontece quando informamos a quebra de um contrato, a demissão, o término de um relacionamento entre outros. Isso porque a vivência diária cria laços invisíveis, identidade, pertença, reconhecimento, rotina e expectativas. As pessoas não se ligam apenas ao papel que assinaram, mas também ao significado que aquele papel passou a ter nas suas vidas. Portanto, quando o contrato termina, não é apenas um vínculo legal que acaba, é uma narrativa pessoal que se interrompe. Basta ver o que acontece numa separação conjugal. Aqui, a compreensão racional raramente acompanha a experiência emocional.  

Por isso, a meu ver, essa é a razão pela qual, muitas vezes insistimos em “não morrer”, não sair, não mudar, não encerrar. E é justamente aí que a vida começa a definhar. Jesus, ao afirmar que se o grão não cair na terra ele não morre, mas continua um grão, não romantiza a morte do grão. Apenas afirma que sem ela, não há fruto. Portanto, embora possa parecer estranho, a lógica da vida passa, inevitavelmente, pela lógica da morte. Não como fim absoluto, mas como passagem, ruptura, desapego. E digo mais, há experiências na vida que só fazem sentido quando aceitamos que algo precisa terminar. 

Numa de suas inúmeras crônicas, Rubem Alves dizia: “Tudo o que é belo precisa terminar. O pôr-do-sol é belo porque suas cores são transitórias. Em poucos minutos não mais existirão. A sonata é bela porque sua vida é curta, não dura mais de vinte minutos. Se a sonata não tivesse fim ela seria um instrumento de tortura. Até mesmo o beijo. Que amante suportaria um beijo que nunca terminasse”? E o casamento, alguns devem estar se perguntando! Que seja eterno enquanto dure! Bem, por hora, vamos deixar esse assunto pra lá. 

Talvez, a verdadeira reflexão que precisa ser feita é esta. Não basta saber que tudo tem começo, meio e fim. Mas, aprender a viver os fins com a mesma intensidade e dignidade com que celebramos os começos. Isso exige clareza, empatia, comunicação e, acima de tudo, humanidade. Porque compreender racionalmente é fácil, aceitar emocionalmente é o verdadeiro desafio. 

Pe. Anísio Baldessin é teólogo, especialista em Administração Hospitalar e Gestão de Pessoas, com ampla atuação em humanização, bioética e assistência espiritual em saúde. Autor de livros e artigos sobre pastoral da saúde e espiritualidade, dedica-se à reflexão sobre o cuidado integral, unindo dimensões humanas, éticas e espirituais. Neste blog, compartilha reflexões sobre saúde, espiritualidade e o sentido da vida. 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor, não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional ou a realidade do IBCC. 

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