O Que Faz a Oração?
Por: Pe. Anísio Baldessin
Em minhas reflexões, já afirmei que a natureza não muda seu ritmo de acordo com os nossos desejos, que, independentemente das nossas orações, os rios sempre correm para o mar e outras “heresias” mais. Porém, existe uma pergunta que já ouvi várias vezes e tenho relutado em respondê-la: por que a oração que faz desaparecer um tumor maligno não elimina a gordura de alguém que, influenciado pela alimentação, pelo gasto energético, pelos hormônios, pela genética e por outros fatores, se torna obeso? Ou seja, se oramos com sinceridade e fé, por que Deus nem sempre muda as circunstâncias?
Para começar, muitas pessoas enxergam a oração como uma espécie de pedido especial a Deus. Por isso, quando enfrentam dificuldades, acreditam que, se orarem com intensidade suficiente, Deus mudará a situação em seu favor. Entretanto, essa visão pode gerar grande frustração. Quando a cura não acontece, quando a tragédia não é evitada ou quando a perda se concretiza, surge o sentimento de abandono ou a ideia de que a própria fé foi insuficiente.
Mas, afinal, o que a oração realmente faz? “A verdadeira função da oração não é alterar a vontade de Deus, mas transformar a pessoa que ora.” Essa foi a resposta que um dia ouvi do saudoso Henry Sobel. A meu ver, faz sentido. Caso contrário, seria difícil compreender por que tantas pessoas sinceras e devotas continuam sofrendo apesar de suas orações. Afinal, o mundo funciona segundo leis naturais que garantem ordem e estabilidade à vida, e nem mesmo a oração tem como objetivo suspendê-las.
Isso não significa, porém, que a oração seja inútil. Ela pode não mudar a realidade material, mas fortalece emocionalmente quem sofre, oferece conforto diante da dor e ajuda a enfrentar situações que não podem ser controladas. Além disso, permite que as pessoas expressem sentimentos de medo, tristeza, raiva e esperança. Basta observar o que acontece nos templos religiosos. A oração não elimina a doença, mas pode oferecer coragem para suportá-la. Não impede a perda, mas ajuda a encontrar forças para continuar vivendo. Não remove a dor, mas reduz a sensação de solidão que frequentemente acompanha o sofrimento.
Portanto, em vez de acreditarmos em um Deus que distribui milagres de forma seletiva, não deveríamos ter a imagem de um Deus que compartilha a dor das pessoas e oferece apoio espiritual para atravessar os momentos mais difíceis da existência? Afinal, o poder da oração não está em controlar os acontecimentos, mas em fortalecer o coração humano diante deles.

Acrescenta-se a tudo isso o sentido comunitário da oração. Ou seja, além de nos colocar em contato com Deus, quando as pessoas se reúnem para orar, elas não apenas dirigem palavras a Deus, mas também fortalecem laços de solidariedade. Nesses momentos, a comunidade se torna uma fonte concreta de apoio para quem sofre. Isso porque a presença de amigos, familiares e membros da comunidade religiosa representa uma das formas mais significativas de consolo.
Quanto à pergunta: “Se a oração realmente altera a realidade física, por que não vemos efeitos claros e consistentes em situações comuns, como a perda de gordura?”, ela só faz sentido se assumirmos que a oração funciona como uma ferramenta automática para produzir qualquer alteração física desejada. Porém, a maioria das pessoas religiosas não entende a oração dessa forma. Se alguém acredita que um tumor foi curado por intervenção divina, isso não implica que toda condição física deva desaparecer da mesma maneira. Além disso, acreditar em um milagre não significa esperar que todos os processos naturais deixem de existir.
Enfim, a natureza segue seu ritmo; a vida e a morte continuam entrelaçadas, com ou sem as nossas orações. Porém, com o crescimento espiritual, a oração deixa de ser uma tentativa de mudar o mundo e passa a ser uma busca por sabedoria para viver nele. Será que não é isso que a oração faz?

Pe. Anísio Baldessin é teólogo, especialista em Administração Hospitalar e Gestão de Pessoas, com ampla atuação em humanização, bioética e assistência espiritual em saúde. Autor de livros e artigos sobre pastoral da saúde e espiritualidade, dedica-se à reflexão sobre o cuidado integral, unindo dimensões humanas, éticas e espirituais. Neste blog, compartilha reflexões sobre saúde, espiritualidade e o sentido da vida.
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor, não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional ou a realidade do IBCC.

