MENU

Mãe: Saudade Nostálgica 

Por: Pe. Anísio Baldessin 

Não tem jeito. Todo ano é assim. No Dia das Mães, bate uma saudade nostálgica. Ela chega mansa trazendo aquele cheirinho gostoso de terra molhada, o brilho tímido da lamparina de querosene que, quando o vento não apagava, iluminava a casa simples, sem forro, de chão batido, mas cheia de vida, de amor e de histórias. Uma casa onde cabiam, além do nosso pai, dez filhos, algumas dificuldades, brincadeiras, risadas, algumas tretas e um coração de mãe que era do tamanho daquela cama de colchão de palha de milho que, por vezes nos sentávamos todos ao redor dela, para ouvi-la contar histórias, bordar, fazer crochê, tricô ou então, literalmente, “tricotar” sobre a vida dos outros. 

É impossível esquecer a gancheira na parede onde pendurávamos as canecas, bules, chaleiras de alumínio tão bem cuidadas. O pote de barro refrescando a água e deixando aquele gostinho que o tempo nunca conseguiu apagar da minha memória. As carnes conservadas no sal, no sol ou na lata de banha. Afinal, tudo era aproveitado com sabedoria e esforço. A simplicidade não era pobreza de espírito; era riqueza de união. 

Sexta-feira era dia de lavar toda as roupas de cama e arear as vasilhas até brilharem. Sábado, huuumm, tinha cheiro de pão assado no forno de lenha! E para acompanhar essa iguaria, invariavelmente, a mãe preparava aquele melado gostoso de leite. Era também o dia de varrer o quintal e deixar tudo arrumado. Vai que aparece uma vista! E domingo? Domingo era especial. Pois, para ter diversão, primeiro era preciso cumprir a devoção. Só poderia jogar bola e fazer outras brincadeiras se antes fôssemos na missa.  Então, bora vestir a melhor roupa no corpo, botar fé no coração e fazer a longa caminhada até a igreja.  

Hoje, quando o Dia das Mães chega, ficam as perguntas que o coração insiste em fazer: o que ela diria vendo esse mundo tão diferente? Aliás, quando ainda estava viva e falava das mudanças no mundo, eu costumava dizer: “não demore muito para morrer. Caso contrário, você verá coisas que não gostaria! Hoje, talvez reclamasse dos costumes modernos e assustasse com tanta pressa e tanta distância entre as pessoas. Mas certamente continuaria ensinando, com sua simplicidade, que o mais importante ainda é o amor, o respeito, a família reunida e a fé. 

Fico a imaginar que, lá do outro lado da eternidade, você esteja olhando para nós, seus filhos, com o mesmo cuidado de antigamente. Talvez, agradeça a vida que construiu, pelas sementes que plantou no coração de cada um. É provável que sinta pena de nós por vivermos num mundo tão cheio de coisas materiais, mas muitas vezes tão vazio de afeto. 

Mãe, neste Dia das Mães, a saudade machuca, mas também aquece. Porque mães como você foi, nunca partem por inteiro. Permanecem vivas nas lembranças, nos ensinamentos simples, no jeito de cuidar, no sabor da água do pote, no brilho das panelas areadas e no amor que nem o tempo consegue apagar. Afinal, há amores que o tempo não diminui. O amor de mãe é assim: permanece na voz que aconselha mesmo quando já estamos longe, no cuidado que continua existindo quando ninguém mais percebe, no jeito silencioso de amar que sustenta a vida sem pedir reconhecimento. 

Rubem Alves dizia: “O amor de mãe não desaparece. Ele muda de lugar. Mora na memória, nos gestos que repetimos sem perceber, na força que encontramos em dias difíceis. E mesmo quando a ausência chega, há algo que permanece vivo: quem foi amado por uma mãe nunca caminha completamente sozinho”. 

 

Pe. Anísio Baldessin é teólogo, especialista em Administração Hospitalar e Gestão de Pessoas, com ampla atuação em humanização, bioética e assistência espiritual em saúde. Autor de livros e artigos sobre pastoral da saúde e espiritualidade, dedica-se à reflexão sobre o cuidado integral, unindo dimensões humanas, éticas e espirituais. Neste blog, compartilha reflexões sobre saúde, espiritualidade e o sentido da vida. 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor, não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional ou a realidade do IBCC. 

Compartilhe:

Deixe um comentário

Localização

Avenida Alcântara Machado, 2576 - Mooca
CEP: 03102-002 - São Paulo (SP)

 
 
Copyrights © 2026 All Rights Reserved by S1000 Design and Marketing
Desenvolvido por S1000 Agência | Activa Comunicação