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Idade certa para errar

Por: Pe. Anísio Baldessin

Pessoas mais velhas, costumam dizer que, se pudessem voltar no tempo, gostariam de ter tido, quando criança, a cabeça que têm hoje. Pois se assim fosse, teriam evitado certas escolhas, aproveitado melhor algumas oportunidades, sofrido menos por coisas que hoje parecem pequenas e, talvez, cometido menos erros. Afinal, a experiência nos dá algo que a juventude ainda não possui. Será?

Será que seria realmente melhor ser adolescente já sabendo exatamente o que sabemos depois de décadas de vida? Ser jovem sem a imprudência, a curiosidade, a ingenuidade e até a capacidade de fazer algumas bobagens que só fazem sentido na juventude?

Na tentativa de entender e/ou responder a mim mesmo esses questionamentos, recorri à Bíblia e, no terceiro capítulo do livro do Eclesiastes, encontrei a seguinte afirmação: “Debaixo do céu, há um tempo determinado para cada coisa”. E a vida parece funcionar exatamente assim. Senão vejamos. A infância tem a liberdade da descoberta. A adolescência tem a inquietação, a rebeldia e a sensação de que o mundo ainda está por ser conquistado. A juventude, ainda que as vezes de forma exagerada, tem a coragem de acreditar que quase tudo é possível.

Reflitam comigo! Se quando criança, tivéssemos a cabeça de adulto, que graça teria esconder dos pais uma nota ruim, a desculpa inventada para justificar um atraso, a aventura improvisada com os amigos, o medo de ser descoberto, a primeira paixão, a primeira grande decepção, a sensação de que uma pequena vergonha diante dos colegas era o fim do mundo. E cá entre nós, há coisas que só são boas porque pertencem a determinada idade. A criança por exemplo, precisa ter espaço para descobrir. Questionar, faz parte da personalidade do adolescente. O jovem tem necessidade de experimentar. E o adulto precisa aprender a lidar com aquilo que essas experiências produziram. 

Embora não seja necessário transformar nossos erros do passado em exemplos de comportamento correto, é importante reconhecer que eles também fizeram parte de quem somos hoje. Por isso, penso que podemos sentir saudade da juventude sem querer recuperar sua imaturidade. Reconhecer que teríamos tomado decisões diferentes sem concluir que deveríamos ter sido outra pessoa. Afinal, a cabeça que temos hoje foi construída, em grande parte, pelas experiências, inclusive aquelas que hoje gostaríamos de ter evitado, que tivemos no passado. Por isso, quando o adulto olha para o adolescente que foi, não precisa sentir vergonha de todas as suas ingenuidades. Pois naquela tenra idade, ele não sabia tudo o que sabe hoje. 

Portanto, pensando bem, eu que em algum momento desejei ter, quando criança, a cabeça que tenho hoje, sou capaz de entender que o mais importante não é desejar voltar ao passado. Mas, compreender tudo o que ele nos ensinou. Afinal, crescer não significa apagar os erros, e sim transformar as experiências em aprendizado. Se cada fase da vida, como diz o autor do livro do Eclesiastes, tem seu tempo, cabe a nós respeitar esse tempo, aprender com o que vivemos e seguir em frente, reconhecendo que, muitas vezes, a pessoa que somos hoje só existe porque um dia tivemos a oportunidade, o desejo e principalmente a coragem e a idade certa para errar.

 

Pe. Anísio Baldessin é teólogo, especialista em Administração Hospitalar e Gestão de Pessoas, com ampla atuação em humanização, bioética e assistência espiritual em saúde. Autor de livros e artigos sobre pastoral da saúde e espiritualidade, dedica-se à reflexão sobre o cuidado integral, unindo dimensões humanas, éticas e espirituais. Neste blog, compartilha reflexões sobre saúde, espiritualidade e o sentido da vida. 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor, não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional ou a realidade do IBCC. 

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