Duas Vozes
Por: Pe. Anísio Baldessin
"Seja um vencedor, seja forte, alguém que se destaque dos demais".
Essas e outras, são expressões que começamos a ouvir desde pequeno. Mas, o que há de errado nisso, alguém pode perguntar! Afinal, vivemos em uma sociedade que nos ensina, desde muito cedo, a competir. Somos avaliados pelas notas que tiramos, pelo cargo que ocupamos, pelo patrimônio que acumulamos, pelo reconhecimento que recebemos. É o que nos diz a primeira voz. Diria, a do mundo. No entanto, existe uma segunda voz, mais silenciosa, mas infinitamente mais profunda. E ao contrário da primeira, ela não pergunta quanto conquistamos, mas quem estamos nos tornando. Pois ela não mede o valor da pessoa por aquilo que ela possui, mas pela capacidade de amar, de servir, de ser justa e misericordiosa. Ou seja, enquanto a primeira pergunta: "Quanto você vale?", na segunda, a interrogação é: "Que tipo de pessoa você é?"
Para os que creem, esta é a voz de Deus. Pois para os cristãos, a palavra de Deus, especialmente o Evangelho é o meio de Deus falar conosco. E a palavra de Deus nos lembra que, embora Jesus jamais tenha condenado o trabalho, a inteligência ou a prosperidade, Ele deixou essa máxima: "Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma" (Mc 8,36)? Portanto, o Reino de Deus inverte os critérios do mundo. “Os maiores são aqueles que servem, os primeiros são os últimos, felizes são os pobres de espírito, os misericordiosos e os promotores da paz”.

É justamente aqui que encontramos o grande desafio. Ou seja, viver nesses dois mundos. Afinal, precisamos trabalhar, administrar recursos, assumir responsabilidades e buscar excelência em tudo aquilo que fazemos. Mas, será que o sucesso profissional e a integridade moral podem caminhar juntas? E o que fazer quando as duas vozes entram em conflito? É neste momento decisório que revelamos quem realmente somos. A pessoa íntegra é aquela que aceita perder vantagens para não perder a consciência. E aqui cabem duas perguntas um tanto quanto doloridas: As minhas escolhas têm me tornado uma pessoa melhor? São guiadas pelo desejo de parecer importante ou pelo desejo de me tornar verdadeiramente bom?
A verdade é que muitos, por ouvir apenas a primeira voz, a da cobrança, aquela que diz: precisam produzir mais, ganhar mais, aparecer mais, vivem cansados e exaustos. E o resultado de tudo isso é a ansiedade, comparação constante e sensação de nunca serem suficientes. Mas, será que o sentido da vida está apenas em construir uma carreira, acumular conquistas ou em formar um caráter? Eu que, por muitos anos, convivi com a dor, o sofrimento e a morte dentro de um hospital, aprendi que, no final da nossa existência, as pessoas não perguntam quantas pessoas nos admiravam, quantos títulos possuíamos ou quanto patrimônio acumulamos. O comentário e/ou as perguntas decisivas são mais simples e muito mais profundas. Ou seja, em que tipo de pessoa você se tornou neste mundo? Acredito que é essa a pergunta que a voz de Deus nos faz. Ela nos liberta da escravidão do mundo. Pois recorda que nosso valor, não depende da aprovação dos outros, mas da fidelidade ao bem.
E agora? Por qual voz você se deixa conduzir? Por aquela que te incentiva a conquistar, ou por aquela que te convida a transformar? Decida-se. Pois, queiramos ou não, ambas estarão presentes ao longo de toda nossa vida.

Pe. Anísio Baldessin é teólogo, especialista em Administração Hospitalar e Gestão de Pessoas, com ampla atuação em humanização, bioética e assistência espiritual em saúde. Autor de livros e artigos sobre pastoral da saúde e espiritualidade, dedica-se à reflexão sobre o cuidado integral, unindo dimensões humanas, éticas e espirituais. Neste blog, compartilha reflexões sobre saúde, espiritualidade e o sentido da vida.
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor, não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional ou a realidade do IBCC.

