Instituto Brasileiro de Controle do Câncer
Dr. Marcelo A. Calil
Diretor-médico
CRM/SP 71859

Cirurgia de Cabeça e Pescoço

Quais as partes do corpo tratadas pela especialidade denominada Cirurgia de Cabeça e Pescoço?

A Cirurgia de Cabeça e Pescoço é uma especialidade oncológica, cirúrgica, mas que também trata de moléstias benignas do território de face e pescoço. O campo de atuação dessa especialidade inclui tumores de pele da face, pescoço e couro cabeludo; tireoide e paratireoide; glândulas salivares (ex.: parótida - glândula da caxumba); lábios; cavidade oral; língua e garganta (laringe e faringe). Os cânceres de boca e garganta serão tratados abaixo como tumores de trato aéreo-digestivo alto.

Há maior probabilidade de se desenvolver algum tipo de câncer de cabeça e pescoço de acordo com o sexo?

As mulheres têm maior predisposição ao desenvolvimento de moléstias da tireoide, mas os homens também são afetados. Esses também estão mais vulneráveis, na fase adulta, à exposição aos fatores de risco para o desenvolvimento dos cânceres de boca e garganta.

CÂNCERES DE BOCA E GARGANTA

Quem está mais vulnerável aos cânceres do trato aéreo-digestivo alto (boca, faringe e laringe)?

A grande maioria desses cânceres é classificada como carcinoma epidermóide. Seu principal fator de risco é o tabagismo (além do cigarro, o hábito de mascar tabaco é altamente maléfico). O efeito cancerígeno do tabaco pode ser potencializado pela ingesta de bebidas alcóolicas - especialmente destilados -, que é outro fator de risco independente e importante para o desenvolvimento desses tumores. Má higiene oral, alimentação pobre em frutas e verduras e infecções virais, especialmente o Papiloma Vírus Humano (HPV) também estão associadas ao desenvolvimento dessas lesões. Traumatismos recorrentes, como os decorrentes de uma dentadura mal ajustada ou de um dente espiculado, por exemplo, podem ainda estar associados ao desenvolvimento de tumores mucosos.
Queimaduras solares e a exposição frequente e sem proteção à radiação solar estão associadas aos carcinomas de lábios e pele.

O câncer de boca é comum?

Sim. É o oitavo tumor maligno mais comum entre os homens e o nono entre as mulheres, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). A denominação câncer de boca inclui os lábios e a cavidade oral (mucosa bucal, gengivas, palatos duro e mole, língua oral e assoalho da boca).

Uma pessoa que nunca fumou ou bebeu pode ter câncer de trato aéreo-digestivo alto?

Sim. Embora aproximadamente 97% dos casos estejam relacionados ao tabagismo.

Os cânceres de garganta e de boca são hereditários?

Esses cânceres estão mais relacionados à exposição a fatores externos, como cigarro, álcool e má higiene oral do que a fatores hereditários.

Diagnóstico/Prevenção

Como se manifesta o câncer de boca?

Por uma ferida na boca, esbranquiçada ou avermelhada, não-cicatrizável, persistente e nem sempre dolorosa. O indivíduo pode manifestar dificuldade para engolir, falar ou abrir a boca, apresentar dor de ouvido, sangramentos à manipulação da ferida ou aumento de linfonodos cervicais (gânglios linfáticos localizados no pescoço).
Normalmente, a neoplasia é precedida por lesões pré-malignas, ou seja, que ainda não são cânceres, mas que podem evoluir para tal.

Como se manifesta o câncer de garganta?

Os sintomas mais frequentes são rouquidão ou alteração do timbre da voz (voz "empastada", por exemplo), falta de ar, dor e dificuldade para engolir, emagrecimento, dor de ouvido e aumento dos linfonodos do pescoço.

Como prevenir o câncer de boca?

A melhor prevenção é manter-se afastado dos fatores de risco. É importante manter uma boa higiene bucal e procurar atendimento médico ou odontológico sempre que houver alguma lesão na boca que não cicatrize em três semanas. Para usuários de próteses mal adaptadas, deve-se procurar o dentista protético para ajuste. O uso em face, lábios e outras áreas expostas, de protetores solares, diariamente e com repetição das aplicações, é recomendado, mesmo em dias sem Sol. A associação do uso do filtro solar com chapéus e bonés também é recomendada à exposição solar.

Como prevenir o câncer de garganta?

Evitar tabagismo e ingesta de bebidas alcoólicas.

Qual profissional deve ser procurado em caso de alguma lesão na boca?

Dentista, cirurgião de Cabeça e Pescoço, dermatologista ou o próprio clínico- geral.

Como é feito o diagnóstico do câncer de boca?

Por meio do exame físico, seguido de biópsia da lesão e análise anatomopatológica. Nenhum tratamento para o câncer de boca pode ser realizado sem que se tenha confirmação, pela biópsia, do tipo exato do tumor. Além disso, existem doenças não cancerígenas que podem se assemelhar muito ao câncer de boca, por isso, a biópsia é o único meio de se diferenciar essas doenças. A biópsia não está associada ao crescimento mais rápido do tumor.

Como é feito o diagnóstico do câncer de garganta?

Também através do exame físico e biópsia da lesão. Para tal, porém, é necessária a realização de uma laringoscopia, com anestesia local ou geral, através da qual uma pequena ótica é introduzida na garganta do paciente.

É possível curar o câncer de boca e garganta?

A possibilidade de cura é maior quanto mais inicial for o tumor. Atentamos assim ao diagnóstico precoce dessas lesões. Esses cânceres podem disseminar-se para os linfonodos (gânglios) do pescoço e para órgão distantes, como pulmões e fígado, por exemplo (metástases). Na presença de doença avançada, com metástases, as possibilidades de cura são reduzidas, mas ainda existem.

Tratamentos

Quais são as opções de tratamento para o câncer de boca e garganta?

Ressecção cirúrgica, Radioterapia ou Quimioterapia. As modalidades terapêuticas podem ser combinadas. Cada caso deve ser analisado individualmente. Consideramos o tipo do tumor, sua localização, invasão de estruturas adjacentes, condições clínicas de seu portador e especialmente seu desejo.

Quais são as sequelas que podem ter os pacientes submetidos ao tratamento do câncer de boca e garganta?

Em casos mais precoces, como, por exemplo, em ressecções de pequenos tumores de língua, pode não ocorrer sequela. Já em casos mais avançados, as sequelas do tratamento cirúrgico são relativas à extensão da ressecção, às vias de acesso cirúrgico utilizadas para a abordagem do tumor e aos recursos utilizados para a reconstrução. A confecção de uma traqueostomia (orifício na base do pescoço para respiração) pode ser indicada em casos avançados, mas frequentemente é provisória nos casos de tumores de boca. Pode ser definitiva, porém, nos casos de tumores de faringe e laringe para permitir que seu portador respire. Muitas vezes o paciente que opta pelo tratamento não-cirúrgico também é submetido à traqueostomia, em função da oclusão da via aérea pela massa tumoral, impedindo a respiração. A alimentação por sonda também pode se fazer necessária nas primeiras semanas da operação ou quando o paciente não consegue se alimentar pela presença do tumor. Quanto mais precoce a lesão, por sua vez, menores são as sequelas do tratamento. Lembramos que a Radioterapia também não é isenta de efeitos colaterais, estando associada à boca seca, queimaduras em pele e mucosa, perda dos pelos locais e dor local. O tratamento radioterápico dura cerca de um mês, mas seus efeitos permanecem por meses. A Quimioterapia está associada a vômitos, fraqueza e mal-estar geral.

Essas sequelas são tratáveis?

Sim. Propomos uma abordagem conjunta com dentistas, nutricionistas, fonoterapeutas e fisioterapeutas, cujas avaliações devem iniciar-se antes do início do tratamento.

Seguimento

A frequência do seguimento clínico será determinada pelo médico do paciente e é individualizada. Além do exame físico, laringoscopia e tomografias (ou outros exames de imagem) serão necessárias. O paciente deve ser acompanhado por, no mínimo, cinco anos, quando as possibilidades de recidiva são reduzidas. No entanto, se o paciente mantiver os hábitos que propiciaram o câncer em questão, as chances de recidiva ou desenvolvimento de outros tumores primários são bastante consideráveis.

Autoexame da boca

http://www.ibcc.org.br/autoexame/boca.asp

CÂNCER DE TIREOIDE

O que é a tireoide e onde se localiza no corpo humano?

A glândula tireoide é um órgão do sistema endócrino. Produz o hormônio tireóideo, que faz o ajuste fino de praticamente todo o funcionamento do organismo (metabolismo). Ela se localiza na porção central e inferior do pescoço, logo abaixo do "pomo de Adão" (cartilagem laríngea).

Quais são as alterações possíveis da glândula tireoide?

Essa pode funcionar para mais (hipertireoidismo) ou para menos (hipotireoidismo), com sintomas relativos ao “aceleramento” ou à “lentificação” do metabolismo, respectivamente. Pode apresentar alteração difusa da sua textura (irregularidades), aumento difuso de seu volume (bócio) e presença de nódulos (benignos ou malignos). As alterações de função e de forma podem, ou não, estar associadas.

O que causa o câncer de tireoide?

O maior fator de risco para o desenvolvimento do câncer de tireoide é o familiar. Alterações na anatomia da glândula também podem predispor a tal, mas não contamos com recursos para prever quais serão esses indivíduos. Há relação entre tumores de tireoide e tratamentos prévios com Radioterapia na região cervical, além de exposição à radioatividade (profissionais e acidentes nucleares). Na maior parte das vezes, porém, não diagnosticamos o causador da lesão.

Diagnóstico/Prevenção

Por que aparecem os nódulos na tireoide?

Processos inflamatórios crônicos da glândula (tireoidite) predispõem ao desenvolvimento de nódulos tireoideos, assim com o avançar da idade, tanto em homens, como em mulheres. Diagnósticos acidentais, por meio de ultrassonografias de rotina (check up) são muito comuns e nossa arma para o diagnóstico precoce dos tumores.

Quais os sintomas do câncer de tireoide?

Nódulos visíveis ou palpáveis nas porções central ou lateral do pescoço. Rouquidão, falta de ar e dificuldade em engolir podem surgir em casos avançados.

O câncer de tireoide é comum?

Com o avançar da idade, mais de 70% da população pode desenvolver nódulos tireoideos, com tendências também crescentes de associação de carcinoma, com a idade. Sua frequência tem crescido no decorrer das últimas décadas.

Como se detecta o câncer de tireoide?

Por meio do exame físico realizado por profissional da saúde e exames de auxílio diagnóstico. A ultrassonografia é um ótimo recurso para o diagnóstico de nódulos tireoideos, principalmente se lesões pequenas e não palpáveis. Seu diagnóstico definitivo só se dará, porém, por meio da biópsia do nódulo. Essa é feita por punção aspirativa, preferencialmente guiada por ultrassonografia. É rápida, feita em consultório e não está associada à disseminação das células tumorais, sendo muito segura. Por vezes, porém, o exame de punção, que analisa as células que compõem o nódulo, não é suficiente para o diagnóstico. Indica-se, assim, a tireoidectomia (ressecção da tireoide) para análise tecidual do nódulo (exame anatomopatológico), definição diagnóstica e tratamento. Endocrinologistas e cirurgiões de Cabeça e Pescoço são os profissionais com mais vivência no diagnóstico e seguimento desses tumores.

Tratamentos

Como se trata o câncer de tireoide?

Com exceção do carcinoma indiferenciado/anaplásico, o tratamento de escolha é cirúrgico e consiste na ressecção total da tireoide (tireoidectomia). Normalmente, a principal via de disseminação desses tumores dá-se através dos vasos linfáticos do pescoço e a ressecção dos linfonodos cervicais pode estar indicada (esvaziamento cervical).
Cerca de três a quatro semanas após a operação, realiza-se a pesquisa de corpo inteiro com iodo radioativo, para uma avaliação inicial pós-cirúrgica. Avalia-se também a necessidade do tratamento complementar com iodo radioativo.

Como é o tratamento com iodo radioativo?

O tratamento complementar com iodo radioativo (radioiodoterapia) é indicado em função dos achados operatórios, exame anatomopatológico e resultado da pesquisa de corpo inteiro. Deve ser realizado após a operação e é necessário que o paciente esteja em hipotireoidismo e, portanto, só ocorrerá após cerca de três a quatro semanas da tireoidectomia ou da interrupção da reposição hormonal tireoidea. Há ainda uma rigorosa dieta a ser seguida e também é necessário evitar contato com qualquer substância que contenha iodo em sua composição. Para o tratamento é preciso internação hospitalar, em regime de isolamento, porque após a ingestão da dose de iodo radioativo são necessárias medidas para evitar a contaminação ambiental e de pessoas próximas, pois a radiação é eliminada pela pele, urina e fezes. Esse tratamento apresenta poucos efeitos colaterais, que, em geral, são bem tolerados. Sensações como alteração do paladar e inflamação nas glândulas salivares podem ocorrer. Não há emagrecimento ou queda de cabelo associados.

Qual o risco da tireoidectomia?

O principal risco inerente ao procedimento é a rouquidão, que pode ocorrer em graus variados, inclusive com engasgos e falta de ar, em função da manipulação dos nervos da voz (nervos laríngeos) que correm em íntimo contato com a tireoide. Esses devem ser adequadamente identificados e preservados à operação, o que nem sempre é possível na presença de cânceres invasivos e processos inflamatórios exuberantes da glândula. Eventualmente indicamos fonoterapia no pós-operatório.
Outro risco inerente ao procedimento é a baixa no cálcio sanguíneo em função da manipulação de pequenas glândulas denominadas paratireoides. Essas dependem da vascularização da tireoide e regulam o metabolismo do cálcio. Normalmente esta queda não é permanente, com resolução espontânea. Pode-se prescrever cálcio por via oral ao paciente em seu pós-operatório. Os sintomas decorrentes da queda do cálcio são formigamentos (extremidades) e câimbras).

Seguimento

No pós-operatório faz-se o tratamento hormonal, que consiste na reposição do hormônio tireoidiano por meio de uma dose ligeiramente superior à necessária, com o intuito de diminuir a produção pela hipófise do TSH (hormônio tireoestimulante), hormônio que estimula o crescimento de células tireoideas. O objetivo é deixar os níveis de TSH em um valor inferior ao nível normal. O seguimento também é feito com dosagens sanguíneas da tireoglobulina (marcador tumoral) e ultrassonografias cervicais, entre outros exames que se fizerem necessários às avaliações semestrais dos pacientes.
A reposição do hormônio (Levotiroxina) é importantíssima e deve ser feita com atenção, inclusive para que o paciente tenha boa qualidade de vida. O prognóstico dos pacientes adequadamente tratados por carcinomas bem diferenciados de tireoide é excelente.

A Radioterapia e a Quimioterapia são usadas para o tratamento do câncer de tireoide?

Raramente. O câncer de tireoide normalmente é pouco responsivo a esses tratamentos, mas algumas vezes são indicados em tumores avançados. Deve-se analisar caso a caso, individualmente.

Dúvidas frequentes sobre câncer de tireoide

Posso viver sem a glândula tireoide após sua retirada cirúrgica?

Sim. Os hormônios produzidos pela glândula podem ser substituídos pelos análogos sintéticos (levotiroxina sódica – existem várias marcas disponíveis no mercado), sem que haja qualquer prejuízo para a saúde e bem-estar do indivíduo. Lembramos que nódulos benignos também podem ser tratados com a tireoidectomia total, com necessidade de reposição hormonal também.

Quais são os fatores de risco do câncer de tireoide para uma evolução menos favorável?

Indivíduos com mais de 45 anos de idade, tumores maiores de 4 cm, presença de metástases a distância, presença de tumores que invadem as estruturas adjacentes à glândula ou invadem vasos ou nervos e alguns subtipos mais agressivos de cânceres.

O câncer de tireoide pode recidivar? Ele pode ser fatal?

Menos de um terço dos pacientes com cânceres bem diferenciados de tireoide podem apresentar recidivas, que ocorrem especialmente nos linfonodos cervicais. Indica-se então o esvaziamento cervical (ou re-esvaziamento) e a complementação do tratamento com iodo radioativo, mesmo que essa já tenha sido feita. Podem-se passar muitos anos para o câncer de tireoide reaparecer, por isso, é necessário seu seguimento em longo prazo. O câncer de tireoide pode ser fatal e normalmente isto ocorre quando o paciente apresenta fatores de risco para uma doença mais agressiva e não é adequadamente tratado.

Vou ter vida normal após o tratamento do câncer de tireoide?

Sim. As chances de cura são grandes. Será necessária apenas a reposição hormonal, sempre acompanhada pelo médico endocrinologista ou cirurgião de Cabeça e Pescoço. Essa reposição não traz limitações para as atividades cotidianas e não apresenta efeitos colaterais.

Autoexame da tireoide

http://www.ibcc.org.br/autoexame/tireoide.asp